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MEMÓRIA Para Roberto In memoriam Meu irmão Roberto tinha três paixões – entre tantas outras. O Adagio em sol menor para cordas e órgão, de Tomaso Albinoni. O maestro austríaco Herbert von Karajan, que ele gostava de pronunciar “Karadjan” – Roberto me ensinou a melhor apreciá-lo. A fotografia – era um excelente fotógrafo. Representei as três paixões neste filme: (1) o Adagio, (2) interpretado por Karajan, regendo a Berliner Philharmoniker, (3) ilustrado por fotografias de minha lavra. Há algum tempo vinha organizando meu acervo, selecionando fotos tiradas há décadas entre aquelas que acredito razoavelmente bem-sucedidas. Era um trabalho de ócio, não tinha pensado em objetivo, agora a perda de Roberto o definiu: este filme, em sua memória. Há lugares que ele visitou e eu não. Adorava viajar, o que se intensificou quando deixou de ter obrigações acadêmicas. Não pude seguir essa intensidade, mas fomos juntos a muitos lugares, e deles procurei fazer a seleção de fotos. Mas as há também de lugares em que fui e ele não, ou fomos em ocasiões diversas. Nessas vezes não testemunhei o seu deleite, resta imaginá-lo. A ordem de apresentação das imagens, seu agrupamento, o tempo de duração na tela são correlatos aos afetos da peça musical. Como sempre, Karajan imprime uma atmosfera peculiaríssima à sua leitura, a começar pelo andamento lentíssimo, exasperador para quem aprecia outras versões: estas ficam na casa dos 8 minutos, a de Karajan chega a quase 12. Ainda, com este andamento e o padrão em três tempos da peça, pude fazer cada imagem corresponder a um compasso, e as passagens entre elas coincidirem com o “tempo forte” (o primeiro) do compasso, acentuando, creio, a harmonia trilha sonora/fotografias. E mais: as mudanças de ritmo e de volume sonoro conferem à peça uma dramaticidade mais caroável aos românticos que aos barrocos – como Tomaso. E os silêncios! Ah, os silêncios! Por vezes, nos momentos mais intensos, Karajan suspende a orquestra, e com a pausa suspendemos também o fôlego e o coração tropeça, ao usufruirmos tão só o longo tempo de reverberação do acorde que se esvai no espaço do local em que foi gravado, o da acústica mágica da sala de concertos Berliner Philharmonie, do arquiteto Hans Scharoun; segue-se o próximo acorde em fortíssimo, quando então resgatamos o fôlego e retomamos os batimentos cardíacos... (Roberto diria: “exageradinho!”) O passeio percorre lugares naturais, conjuntos edificados, e edifícios isolados – como o nascer do sol numa praia, uma rua de Ouro Preto, o Palácio Itamaraty. São três tipos de lugares. A montagem, elemento-chave do cinema desde os pioneiros russos, estabelece analogias, diferenças, contrastes, da “secularidade” tranquila das ruazinhas de Tesquisquiápan, Guanajuato, Oaxaca, Querétaro e tantas outras (que país inesgotável, o México!), à “paisagem poderosa” de um glaciar da Patagônia, seguido de certos conjuntos edificados ou prédios emblemáticos, momentos grandiosos do “sublime” como categoria estética – como o próprio Adagio. Nem ele nem nós – outros irmãos, sobrinhos e agregados que compunham os grupos de viagem – aparecemos nas imagens (há algumas exceções). Fiz um filme anterior no qual registro fartamente esses encontros amorosos. Aqui não: esse “deserto” simboliza sua ausência: se ele não está mais aqui materialmente, contudo permanece no mundo de nossa imaginação; que estas imagens sejam, junto com quaisquer matérias a ele familiares – além dos lugares, sua coleção de camisetas decoradas (a cada encontro nos presenteava, a todos, uma nova, referindo o tempo e o espaço do momento), fotografias em papel aos milhares, souvenirs trazidos das viagens, discos, livros, o Fusca vermelho. São para sempre gatilhos a (re)ativarem a memória que temos dele. Roberto não viveu para ver este filme. Todavia, imagino-o assistindo, com a atenção generosa que lhe era peculiar, em silêncio, aqui e ali um sorrisinho maroto nos lábios, até que em certo momento vocalizava um “Ah!...”. Oxalá eu tivesse merecido vários. Brasília, 24 de maio de 2025