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OS BOATOS Durante trinta e seis anos, de 1933 a 1968, e todos os dias, Oliveira Salazar (1889 – 1970), o chefe do Estado Novo, fez anotações em pequenos diários (Diários de Salazar, Porto Editora, 2021) de acontecimentos da sua vida pública e privada. Lamento desapontar-vos, mas vou já direto ao assunto: o dia a dia do ditador, registado em setenta e dois volumes escritos com a sua letra miudinha e impercetível, é profundamente desinteressante e aborrecido. Obviamente que é importantíssimo como fonte, como registo histórico para estudo, porém, não tem qualquer interesse. Salazar era um homem de hábitos rígidos, ritualizados, conservadores, beatos, tal como o próprio corporativismo que se tornou num «regime austero, pudico, ritualista, cinzento, de chapéus e discursos, granitos e maçãs, vinho tinto e água benta, sempre pesado, sempre previsível» (Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar). Em São Bento, onde se respirava a paz silenciosa de um claustro, o chefe de governo vivia quase recluso, levando uma vida de frade. Tímido, reservado, sedentário, avesso a contactos públicos, sentia pavor a expor-se publicamente, fugia das multidões. Salazar não só vivia quase recluso, como vivia rodeado de mulheres, num ambiente muito feminino: de Maria, a governanta, aquela que dizem ter sido, durante anos, apesar de oculta, na sombra, a mulher mais poderosa de Portugal pela influência junto do Presidente do Conselho, uma mulher, com quarto no mesmo piso do patrão, que lhe era devotadíssima, descrita como sovina e cruel (pelas outras empregadas da casa) e de meia dúzia de empregadas, a maioria menores (algumas ainda frequentavam a escola, saindo escoltadas de São Bento por um agente à paisana da PSP quando iam ter aulas). Além disso, as suas «afilhadas», duas meninas que foram criadas no Palácio de São Bento, por ele e pela governanta Maria, como se fossem suas filhas, entretinham-lhe a vida pessoal e familiar: passeia com as protegidas, toma as refeições na sua companhia, dá-lhes lições, e quando estas cresceram, trata-lhes das contas bancárias, acompanha-as no casamento e na maternidade, na obtenção e mudança de emprego, no pagamento do colégio dos filhos das raparigas (como se estes fossem seus netos). Em São Bento eram frequentes os chás frequentados por senhoras suas admiradoras: sobretudo mulheres e filhas de ministros, embaixadores, deputados e empresários – as amizades misturavam-se com os interesses públicos e com os negócios privados, pois claro. O ditador pelava-se pela presença feminina, encantava-se com a sua alegria ruidosa, adorava ouvir as conversas das mulheres, principalmente quando resvalavam para coscuvilhices, intrigas, pequenas tricas domésticas e frivolidades. Quanto mais a conversa baixava de interesse, mais interessante para ele ficava. Mas, voltemos aos Diários... Classifiquei-os como desinteressantes, porém, como também frisei, importantes para o estudo da figura do ditador e da sua ação. Uma curiosidade nos Diários é que a palavra «boatos» aparece neles 239 vezes. Salazar tinha uma obsessão com o boato. Falava sobre boatos, ouvia falar sobre boatos, procurava-os e levavam-lhos. Boatos de todo o género: boatos políticos, monárquicos, policiais, militares, populares, oposicionistas, sindicais, ministeriais, universitários, coloniais, empresariais, internacionais e eclesiásticos. Não foi ao acaso que criou os Serviços de Censura, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, posteriormente, PIDE), um campo de concentração no Tarrafal, na ilha caboverdiana de Santiago, três prisões políticas: no forte de Peniche, Caxias e Aljube, o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), mais tarde, Secretariado Nacional de Informação (SNI), manipulou a GNR, a PSP, a Judiciária e a Guarda Fiscal, fazendo destes meios de repressão ao serviço do regime... «É através da Maria que me chegam os boatos, os rumores mais secretos e até certas críticas», confessou ele à jornalista francesa Christine Garnier (a tal com quem dizem que chegou a ter um affair). O papel de boateira, claro, passou-o para o elo mais fraco, a criada, a governanta Maria. Mas o grande boateiro era ele. «O boato é inconsciência e crime», advertia um cartaz, dos anos 60, do Secretariado Nacional da Informação (SNI), o organismo público responsável pela propaganda política, informação pública, comunicação social, turismo e ação cultural, durante o regime do Estado Novo, em Portugal. Salazar dizia-se contra o boato, mas o boato usado pelos outros, entre eles, não os boatos que lhe chegassem aos ouvidos ou que lhe interessassem alimentar e difundir... Podia ser um grande coscuvilheiro, mas de parvo não tinha nada. Sabia-a toda...